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A idolatria de algo bom

  • 28 de jan. de 2020
  • 4 min de leitura

Se você algum dia decidir ler a obra Pequenas Tragédias de Alexandr Púchkin encontrará um conto chamado Mozart e Salieri. É uma das tentativas de contar a história, em parte ficcional, em parte verdadeira, desses dois músicos. A abertura dessa tragédia é um monólogo de Salieri, onde ele apresenta sua paixão pela música e a sua sensação de que Deus lhe é injusto.

De onde vem essa sensação? A maioria das versões que contam a história de Mozart e Salieri focam na ideia de que Salieri era o que se pode chamar de um monge da música, muito dedicado e buscando ser correto diante de Deus para merecer o dom tão sublime que recebeu. Do outro lado está Mozart, alguém a quem o talento simplesmente vem. Ele não precisa ser nem dedicado a música, nem tampouco um sujeito correto para merecer o dom que lhe permite ser melhor que Salieri. Há muita teoria e ficção nessa ideia sobre os dois personagens históricos, contudo podemos pensar na forma como o personagem Salieri se porta para entendermos quando praticamos a idolatria julgando-nos crentes. Dê uma olhada num trecho do monólogo que falei:

Não há justiça, todos dizem, cá na terra.\Tampouco lá no céu... aquilo me é claro\Como uma simples gama. Eu nasci\Amando artes; quando o órgão alto\Soava na igreja nossa antiga,\Ouvia-o pasmado – transbordavam, doces,\As lágrimas involuntárias. Desde cedo,\Eu rejeitara as diversões, e toda\Ciência alheia à música ficara\Entediante para mim; altivo\E pertinaz, abrira mão de tudo\E dedicara-me a música tão só. Difíceis\São os primeiros passos, árduos os tentames\Primeiros. Superei os dissabores\De iniciante. Pondo o meu ofício\Por pedestal as artes, transformei-me\Num artesão: aos dedos dei a seca\E dócil rapidez, ao meu ouvido\Exatidão. Como um cadáver, recortei,\Matando os sons, a música. Provei\As leis harmônicas pela álgebra. Ousava,\Então, já sabedor, fluir os gozos\Do meu criativo sonho. Comecei,\Ás escondidas, a criar, mas sem pensar ainda\Na glória. Muitas vezes, ao passar\Na minha cela dois, três dias, esquecidos\O sono e a fome desfrutando\Queimava minha obra com frieza\Quando os pensamento meus, os sons\Que tinha concebido flamejarem\E desaparecerem fumo leve.\

O que me encanta nesses versos é que ele descreve a sublimidade da arte. Ele nos mostra que a arte como um lugar que nos oferece a beleza, e quanto maior até certa transcendência É muito provável que você, leitor, tenha interesse por alguma forma de arte. Pode não ser música, pode ser o teatro ou a poesia, mas nós sempre encontramos alguma forma de admirar esse encanto que Deus pôs no mundo, que é a beleza, e a nossa capacidade de produzi-la em diferentes frentes.

Todavia como tudo na vida, o excesso pode levar a dificuldades consideráveis. Percebemos que a relação de Salieri com a música é doentia. Ele observa que se desligou das demais coisas, desejando apenas o conhecimento daquilo que estava conectado com a sua música. Naturalmente, que isso é uma hipérbole, ou um exagero, próprio da poesia, mas não corremos o risco de fazer isso literalmente? Quantas vezes não nos vemos apaixonados por uma obra cinematográfica, ou uma série de livros, mesmo pelo estudo de um pintor que apreciamos, tudo isso pode em algum momento ter se tornado um ídolo, e uma boa forma de averiguar isso é nos questionarmos se não estamos dedicando tempo demais a seja lá o que for, e dependentes demais.

Outro ponto que me chama a atenção nesse trecho é quando Salieri diz que se tornou um pedestal de sua arte. Sem dúvida é verdadeira a máxima uma vez proposta: “Você se torna aquilo que adora”. Salieri tanto adorou a beleza de sua própria arte que começou a se tornar dependente dela para encontrar sentido em si mesmo. Nesse caso, seu senso de realização estava conectado com ser reconhecido pelo que fazia. Quantas vezes não podemos nos pegar encontrando realização não em Deus, mas em seja lá o que tiver se tornado o nosso ídolo. É possível que nos liguemos tanto a esse ídolo que já não mais nos sentimos separados dele, torna-se parte de quem somos. Fuja disso!

E talvez a parte mais impressionante disso tudo seja que no fim ele questiona a Deus por não conseguir plena realização. Por que isso acontece? Porque a sua idolatria não se manifesta em algo que deixe claro que ele já não adora a Deus. Não é como se ele estivesse pondo incenso num altar pagão. Ou de forma mais sútil viciado em um pecado, como o pecado sexual, por exemplo. Ele só ama a música, isso é errado? A resposta é sim, se isso é resultado de uma idolatria. Por isso ele não pode encontrar plena satisfação na música, pois ela é incapaz de dar por si mesma. Mas ele não percebe isso. E quando encontra alguém melhor do que ele, sente-se insatisfeito. E entendendo ser inocente de qualquer pecado, questiona o porquê de Deus lhe dar tal sorte.

Meu querido irmão, será possível que você em algum momento de sua vida não amou demais algo a ponto de acabar pondo a sua satisfação nessa coisa? E posteriormente não entendeu o motivo de sentir-se distante de Deus? Como se Ele não te satisfizesse mais? Deixo aqui uma sugestão para que você encontre em Cristo uma resposta se de alguma forma tem sentido essa falta de satisfação. Entregue-se a Ele, e certamente Ele te salvará, e satisfará os desejos do seu coração.

Uma observação final, outra forma de ter contato com essa história, caso você não queira ler o poeta é assistir ao filme Amadeus de 1984.

SDG

 
 
 

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