Moldando tudo a nossa Imagem
- 2 de jan. de 2020
- 3 min de leitura
“Quando a obra é publicada o autor morre”. Era a citação que a esposa de um chefe meu costumava repetir. Ela repetia porque eu como escritor odiava essa frase. Não pelo medo de morrer, mas pela sensação de que quando entrego um livro para o público ele está sujeito a toda e qualquer crítica, e mais que isso a interpretação, correndo o risco de que alguém julgue que meus personagens disseram ou transmitiram uma ideia que eu jamais iria querer dizer.
Talvez você já tenha ouvido falar o termo fanfic. Ele é a definição daquilo que fazemos quando reescrevemos uma história para dar-lhe uma continuação ou alterar pontos dos quais discordamos. Às vezes fazemos isso apenas mentalmente, querendo acreditar que a história terminou diferente, mesmo que na prática isso não seja a realidade.
Eu percebo que essa é a relação mais comum que temos com tudo o que assistimos ou lemos. É profundamente comum sair do filme já pensando que deveria ter acontecido algo diferente com um personagem ou que gostaríamos que este ou aquele não tivesse morrido. Na prática, nós queremos ser coautores da obra, e colocar nela tudo aquilo que nos agrada, mas isso é necessariamente bom?
Recentemente tivemos um novo Star Wars que dividiu opiniões. Eu me considero não um fã fervoroso da franquia, mas alguém que conhece-a suficientemente para emitir uma opinião. Assistimos a várias tentativas de agradar a todos esses coautores, de modo a haver cenas em homenagens a todos os filmes até os recentes. E pouco a história pode se desenvolver já que é necessário homenagear tudo e nunca se comprometer a desgostar um desses fãs tão devotos, ainda que certamente as opiniões deles sejam conflitantes.
E é aqui que eu ponho a minha crítica. Nos acostumamos a amar tudo do nosso jeito, e queremos que aquilo a que mais nos dedicamos, muito mais seja conformado a nossas específicas exigências. O problema é então definir a que mais nos dedicamos?
Para os crentes, talvez essa resposta seja boba. A Deus (tomara que seja nossa resposta). E aí corremos o risco de tentar conformar Deus à imagem que nos apetece que Ele tenha. Por isso uma das coisas mais normais do mundo hoje é discutirmos o que Jesus era, sendo comum criar-se a imagem de um Jesus revolucionário, ou um Jesus parecido com Gandhi, ou semelhante a um velho sábio de filmes. Alguns de nós gostam de imaginá-lo como apenas um homem que lutou contra um sistema opressor. Outros O veem como tão divino que não parece ter qualquer semelhança com o homem.
Meu convite hoje é que você faça uma reflexão: é possível que eu esteja vendo Jesus apenas como alguém a semelhança do que quero que seja? Será que eu não me comporto com Ele como também posso fazer com filmes e tudo o mais? Jesus é com certeza mais importante, poderoso e apto para mudar as coisas do que o filme, série ou livro de que gosto.
Somos feitos a imagem de Deus, não é Deus que é feito a nossa imagem. E nesse caso não se pode dizer vice-versa. Pois aquele que é feito a imagem do outro se conforma com a imagem do inicial. Se Deus se conformar a sua imagem, então Ele não será o Deus da Bíblia, o todo poderoso e que realmente é capaz de te ouvir e se relacionar com você, Ele será como os deuses que Isaías descreve, que tem boca, mas nada dizem. Você verá exatamente a imagem que deseja, mas o que Ele diz não pode mudar nada do que você é, ou fazer qualquer diferença na sua vida.
Ora e como sair disso? Simples, apesar de muitas vezes não querermos. Conheça-O. A palavra de Deus está aí. Leia-a. Mas não leia como se pudesse fazer uma fanfic. Ou se fosse como Star Wars escrita para ser o que você quiser que seja. Ele vai te dizer o que você não quer ouvir. E é por isso mesmo que sabemos que Ele fala. Escute-O em tudo o que diz, e não só no que você gosta, e o Senhor certamente vai fazer mais a diferença em sua vida do que um filme que pareça perfeito. Ele é a perfeição, não importa a nossa opinião.
SDG


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