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Quando tentamos apagar incêndios, algumas observações sobre o programa da Netflix: Desventuras em sé

  • 18 de jan. de 2019
  • 6 min de leitura

Eu amei Desventuras em Série! Assisti cada episódio com aquele gosto de infância e o bom sentimento de estar em contato com um material excelente de diversão. Por isso, torna-se necessário falar um pouco da série, e alguns insights teológicos que ela nos oferece. Vale dizer, como não poderia deixar de ser, essas observações conterão spoilers (revelações de enredo) de todas as temporadas.

A primeira coisa que gostaria de observar está conectada ao tom da série. Ele é pessimista mesmo quando as melhores coisas acontecem. Ainda que o final tenha sido um pouco menos pessimista que o do livro, a sensação de que tudo pode dar errado permanece. Não importa o que se faça, o Conde Olaf sempre fugirá, algum vilão aparecerá, um incêndio começará, a vida é sobreviver até o dia em que se vai morrer. Eu certamente não acho que a vida seja apenas isso. Contudo devo admitir que o sentido da vida se dê em Cristo, e nesse aspecto me assusta o tipo de vida que a série propõe, afinal se o sentido da vida for apenas fugir da morte o quanto der, ou ainda apagar incêndios literais e não literais, quando tudo acabar, que sentido terá tido?

A partir disso, precisamos pensar a CSC. A organização que tenta apagar incêndios literais e não literais. Devemos recordar a razão da CSC ter se dividido. Alguns achavam que era melhor causar os incêndios do que apaga-los. Há algumas metáforas que poderiam ser tiradas daí, mas eu vou ficar apenas no que temos de literal. A organização está tentando resolver os problemas do mundo, e em meio a isso se torna a causadora de muito do que combate. O grupo passa a ter de apagar incêndios que de alguma forma eles criaram. Não é mais ou menos assim que se dá quando tentamos resolver os problemas que inventamos? De certo modo a CSC, com seus poetas, cientistas, voluntários e toda uma nata do melhor que a humanidade pode produzir não é capaz de resolver o problema e ainda o torna pior. Não importa quão capazes sejamos, nós não somos capazes de resolver nosso próprio problema, e quanto mais tentamos mais o aumentamos. Esse aspecto da série deixa isso bem claro por meio da organização secreta. Talvez isso fique mais claro ao final quando descobrimos que a cisão começou porque o lado bom (se assim interpretarmos) da cisão decidiu que valia a pena roubar o açucareiro, pois era necessário fazer algo errado por um bem maior. Essa ética utilitarista é combatida em muitos momentos pela visão de mundo inicial dos protagonistas, e talvez o expectador mais atento tenha notado que também poderia discordar dessa visão de mundo.

Dentro da mesma crítica podemos falar um pouco dos irmãos Baudelaire. Tenha a certeza de que eu gosto muito dos personagens, e exatamente por isso vale a pena falar sobre as atitudes deles a partir da segunda temporada. Isso fica bem claro na fala do Conde Olaf durante seu interrogatório no julgamento. Ele expõe que os Baudelaire sequestraram, chantagearam, incendiaram, roubaram entre outras coisas. O autor deixa com isso um tom mais cinzento em seus personagens que eram simplesmente bons no começo, e a verdade é que eles se tornam mais reais. O apelo deles a uma ética utilitarista, onde tudo de errado que fazem é por um bem maior pode ser aceito em algumas circunstâncias, mas de um jeito ou de outro mostra o mesmo que vimos através da CSC, somos pecadores e pelas suas próprias forças, eles não podem ser simplesmente bons ou corrigir os problemas do mundo. E talvez aquilo de mais significativo para entender é o sentimento de que o conhecimento pode salvar. É nítido no começo da série que personagens inteligentes são bons e personagens maus são intelectualmente fracos. Todavia conforme a história vai se desenvolvendo, Personagens maus e inteligentes surgem, como os pais do Conde Olaf, Ishmael, o irmão mau do hotel, até mesmo Esmé que pode não ser um poço de intelectualidade, mas entende do que precisa para fazer suas maldades. O ponto é que no começo da série tem-se a falsa ideia de que a inteligência salvaria o mundo, mas não é o caso. Há maus que são inteligentes, e inteligentes bons que utilizam da maldade em dados momentos.

E mantendo a conversa nos Baudelaire podemos citar os pais que são profundamente exemplares. Eles deixam lembranças que marcam a vida dos filhos. E essas lembranças tinham uma razão, os pais se preocupavam em não apenas participar da educação, mas em ser provedores de tal educação. Observamos que no decorrer da série o conceito do conhecimento como salvador vai deixando de ser válido, porém o de que o conhecimento e algo maravilhoso fica bem claro. A série expõe o quanto Violet é brilhante, Klaus é capaz e mesmo a pequena Sunny descobre talentos além de morder com o desenvolvimento da história. Os pais geraram marcas que definiram o bom caráter dos filhos (minha crítica a atitudes questionáveis que confirmam a maldade inerente, não altera as demonstrações de boa índole deles), e definiram sua capacidade intelectual invejável que lhes permitiu sair de situações difíceis. Portanto a série também nos mostra a diferença que pais presentes (mesmo que tendo morrido cedo) podem fazer na vida de seus filhos.

Se falamos dos pais, podemos falar do pós-pais. Depois da morte de seus pais, nos primeiros episódios, os personagens ficam com diferentes tutores. E o autor com os comentários do Conde Olaf nos últimos episódios mostra que um dos assuntos da série era esse, a tutoria. De certo modo, ao ensinar os irmãos mais velhos a queimar, o Conde Olaf foi o tutor pelo qual foi chamado no primeiro episódio, claro que ensinando o mau, mas isso também é tutoria. Os demais tutores também merecem destaque para percebermos algo do que passaram aos irmãos. Por exemplo, tia Josephine fala um pouco sobre o medo que gera paralisia. Ou Jerome Squalor por sua fraqueza. O Sr. Poe que chega a se oferecer como tutor, embora seja incapaz de ajudar, por ser literalmente cego para o óbvio. Todos eles se mostram tutores falhos, e geralmente a falha que os caracteriza também determina porque não foram capazes de auxiliar os irmãos, assim como no caso de Olaf que reclama de seus tutores. O ponto é que os tutores podem fazer a diferença na vida de uma pessoa, mas também não são a solução final para a vida.

Assim a série mostra pelo menos três formas de salvação que falham. A inteligência, a tutoria, e o voluntariado. Um a um, eles não são capazes de unidos ou por si só resolverem o combate contra o mau no mundo. E isso é interessante porque Cristo é as três coisas em nós. Ele é a nossa sabedoria, pois dependemos d’Ele para obter verdadeira sabedoria. Ele é o voluntário, pois se deu por nós, antes que pudéssemos nos entregar. E Ele é tutor, pois é o nosso Mestre Supremo. Mas Ele é muito maior que todas essas coisas e gera em nós aquilo que nós mesmos não pudemos ser. O que a série nos mostra através disso, portanto é que nada do que Cristo é resolve, mas apenas a ação do próprio Cristo pode alterar quem o homem é e salvá-lo desse mundo mau.

Os últimos dois episódios da segunda temporada me chamaram muito a atenção por diferentes fatores. O episódio parece uma ode a Imago Dei e a queda, esses dois conceitos são trabalhados através dos temas, e dos personagens. Podemos ver a apresentação da Imago Dei nos personagens que são chamados de “aberrações”, por exemplo, em diferentes momentos fica claro que eles tem habilidades e capacidades louváveis, mas o título que lhes é dado e aquilo que eles mesmos pensam de si, os impede de admirar isso. Eles se entendem apenas como o que os chamam e assim não veem tudo o que representam e são, até já bem próximo do seu fim, já na terceira temporada. Talvez muito além disso, percebemos essa questão através da morte de Olivia Caliban. O conde Olaf prometeu que alguém seria comido por leões como forma de show. Por azar e estratégia, acaba sendo ela. Porém o que é interessante é que antes de acontecer todos consideram como interessantíssimo ver essa cena, pois torna-se algo único na vida, nunca viram. Aí acontece diante deles, e eles percebem o quão errado é permitir que um ser humano passe por isso. Ou seja, vemos toda a maldade que cega os homens para o quanto são perversos, mas também a graça comum que faz com que vejam que não é justo permitir que um semelhante passe por tamanha tortura. Vale a pena assistir com essa reflexão tudo o que se dá.

Eu poderia falar ainda dos personagens e pecados específicos que os caracterizam, como a profunda idolatria de Esmé Squalor por moda e seu açucareiro, ou o egoísmo de Carmelita, mas esse texto já ficou grande demais. Então gostaria de deixar como reflexão final que a série nos permite perceber o quanto o ser humano falha em resolver o próprio problema, e não importa quantas virtudes possamos ter, isso não é suficiente para nos salvar ou transformar. Verdadeiramente só há um que pode. A série é magnífica, e olhada sob esse prisma, nos lembra que fomos salvos, pois é o que esses personagens vivem que nós teríamos não fosse a benção da ação de Deus em tudo o que somos.

P.S. Há muito mais que poderia ser comentado, esteja a vontade para discutir os pontos nos comentários desse texto. Talvez pudéssemos tentar entender o que representa uma cobra como elemento de salvação ao final, ou as teorias de conspiração (que a série atrapalhou) quanto ao que continha o açucareiro, e símbolos estranhos usados pelos personagens, enfim se estiver interessado seria ótimo discutir isso nos comentários.

SDG

 
 
 

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