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Dois anciãos e o conceito de Realização

  • 15 de jan. de 2019
  • 5 min de leitura

Entre as extensas dificuldades que já tive em minha leitura bíblica, talvez uma das mais incomuns que eu tenho é em ler o livro de Eclesiastes. Alguém dirá que não estou sozinho, pois muitos sofrem para entender o livro, mas o meu incômodo com o livro vai um pouco além disso. Quando leio esse livro sinto como se estivesse lendo um manual da desilusão, ou pelo menos um livro que fala sobre como sentir o peso da falta e significância da vida em poucas linhas. Talvez, você possa dizer que não, o livro na verdade é sobre o significado que a mesma tem em Cristo, e eu concordo, de certo modo, mas o ponto aqui é demonstrar que sentir como se a vida não tivesse significado é um dos efeitos que Eclesiastes pode gerar.

Em meio a isso, eu desenvolvi o costume de tentar ler Eclesiastes junto com Deuteronômio. Considero Deuteronômio a antítese de Eclesiastes. É claro que muitas pessoas afirmam que Deuteronômio também as incomoda, afinal é uma série de discursos que em muitos momentos apenas recapitulam aquilo que já lemos nos livros anteriores. Ainda, reapresentam até mesmo leis que antes já tinham sido bem difíceis de manter a atenção do leitor. Assim é fácil concluir que Deuteronômio também é um livro incômodo. Contudo perceba que se o meu problema com Eclesiastes é a falta de significância que ele me traz a vida, eu tenho a impressão de que Deuteronômio muitas vezes me apresenta o quanto a vida pode encontrar significado em coisas mais profundas e mais simples do que as valiosas discussões filosóficas de Eclesiastes.

Afinal porque este texto tem o título que lhe foi dado? Porque tenho a impressão de que se tratam de livros que tem a realização na vida como não necessariamente um tema, mas uma questão que fatalmente permeará o que propões, e ainda que são declaradamente escritos por velhos. Ora mas Moisés já era bem velho quando pôs-se a escrever Gênesis e todo o pentateuco, afinal foi no auge de seus 80 anos que ele foi para o Egito. É verdade, mas nos quatro primeiros livros, Moisés não nos dá a impressão de se sentir velho. Em Deuteronômio ele realmente parece velho. Numa comparação simplória, se o professor Girafales estava certo, e só se fica velho quando se quer, ou adaptando só se é velho quando se entende por velho, apenas o Moisés de Deuteronômio se sentia velho. Já quanto ao autor de Eclesiastes, eu não preciso fazer uma grande defesa, ele realmente se entende como um velho que já viveu todas as experiências possíveis à vida.

Realização no âmbito de uma vida inteira é algo difícil de definir. Se pensarmos num jogador de futebol, se ele ganhou a copa do mundo, talvez ele possa se entender como realizado, mas se logo depois, ele não consegue mais bons contratos, e não se desenvolve como jogador, é possível que ele chegue ao fim da carreira não se sentindo realizado, mesmo que tenha ganhado (talvez) o maior título possível em sua área. Assim sendo, é possível compreender o que é uma realização num período da vida numa área especifica como algo aferível. Podemos observar se esse ano foi de realização para um jogador numa avaliação desse tipo. Mas dificilmente há critérios para se definir a mesma realização ao longo da vida. Talvez o único que possa definir, se é realizado ou não, seja o próprio indivíduo.

Aqui se encontra o que gostaria de observar sobre esses dois livros. O senso de realização de cada um dos autores. O autor de Eclesiastes propõe diferentes coisas que fez ao longo da vida. Ele construiu de forma a ter um nome memorável. Ou ainda tentou provar todos os sabores possíveis, e assim se realizar pelo prazer da alimentação. Ele também experimentou o amor conjugal bem como o familiar de forma a tentar se realizar por meio dele. A fama, também está entre suas realizações. O ponto é que pela descrição do “pregador” ele fez tudo de “realizante” o que havia para ser feito nesse mundo! E o que ele tem a dizer de tudo isso? “É vaidade”. E pior, “é correr atrás do vento”. Talvez a melhor atualização do mundo atual para essa ideia seja a frase de Jim Carrey: “Eu acho que todo mundo deveria ficar rico, famoso e fazer tudo o que sempre sonharam, para que possam ver que essa não é a resposta”.

O autor de Deuteronômio, como observei antes, não está tentando descrever o que é a vida humana, entretanto chega a alguma coisa nesse assunto. Há alguma discussão sobre o que é Deuteronômio, mas em geral concordamos que seja um texto escrito em forma de tratado. Mas essa não é a questão que quero chamar a atenção. E sim para o que Moisés acaba nos contando sobre sua vida, como resultado dos discursos que faz e das demais informações que nos dá. No começo do livro, Moisés nos conta que mais uma vez orou ao Senhor para que lhe permitisse entrar na terra prometida, ao que Deus lhe diz que ele não entrará. Aqui já estabelecemos o primeiro ponto na realização de Moisés, ele não verá o fruto do seu trabalho. Sua vida foi plantar para que outros colhessem. Todo o seu suor, todas as suas orações, cada momento de luta, como erguendo o cajado para que Israel prevalecesse, tudo foi para que outros usufruíssem do resultado de todo esse esforço. Talvez afirmar que a vida é correr atrás de vento, fosse uma frase mais pertinente a Moisés, não acha?

Poderíamos citar mais das aparentes decepções de Moisés. Ele apresenta a benção e maldição a seu povo, e dá-lhe diretrizes para que escolham a benção. Eles afirmam que escolhem a benção. Mas Moisés sabe que eles vão falhar, e observa que quando falharam devem buscar arrependimento. Perceba que ele participou da construção do caráter desses jovens, e apesar de eles parecerem uma geração melhor que a anterior, Moisés sabe previamente que em dado momento, Israel se perderá e o exílio se tornará uma realidade. E com tudo isso, pode surgir o questionamento, como Moisés levanta todas as manhãs? Ou como o autor de Eclesiastes tendo tido contato com os escritos de Moisés ainda reclama?

Como foi dito antes, realização nesse âmbito da avaliação de uma vida completa é mais um sentimento do que um conjunto de obras. Os atos do autor de Eclesiastes podem ser grandiosos, mas não vieram, pelo menos não plenamente, de um desejo de glorificar a Deus. O ser humano foi feito para glorificar a Deus, e assim sendo, essa é, mesmo que nos neguemos, nossa razão primordial de viver. Quando não vivemos para a glória de Deus estamos deixando de ser o que deveríamos ser, e por consequência ao término da vida sentimos que corremos atrás de vento, pois nada fizemos que realmente importasse para nós mesmos, pois não fizemos aquilo que em algum lugar no fundo de nossa existência, sabemos, é nossa razão de ser.

Moisés, em Deuteronômio, pode não ter conseguido concluir nenhum de seus grandes feitos, mas ele está em paz. Talvez as palavras dele ao dizer que o Eterno nunca abandonaria seu povo, sejam uma reflexão pessoal também. Moisés andou com Deus, e tendo-o por companhia, a conclusão da vida é feliz, não porque não tenha dissabores, mas porque foi vivida do jeito que deve ser. Se posso sintetizar tudo isso num ponto, eu diria: O “pregador” de Eclesiastes fez tudo o que havia para fazer, mas não encontrou sentido em nada disso, pois fez para sua vaidade e no fim descobriu que correu atrás de vento, já Moisés não conseguiu concluir seus maravilhosos projetos, mas foram feitos para a glória de Deus, e mesmo que seja triste não realizar tudo isso as vezes, ele encontrou paz e satisfação em tudo que fez, ele fez exatamente o que foi feito para fazer, ele correu a corrida que valia a pena, não atrás do vento, mas junto de Deus.

SDG


 
 
 

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