SABEDORIA E TOLICE
- 27 de dez. de 2016
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“A sabedoria construiu sua casa; ergueu suas sete colunas. Matou animais para a refeição, preparou seu vinho e arrumou sua mesa. E enviou as servas para fazerem convites desde o ponto mais alto da cidade, clamando: ‘Venham todos os inexperientes!’ Aos que não têm bom senso ela diz: ‘Venham comer a minha comida e beber o vinho que preparei. Deixem a insensatez, e vocês terão vida; andem pelo caminho do entendimento.’ Quem corrige o zombador traz sobre si o insulto; quem repreende o ímpio mancha o próprio nome. Não repreenda o zombador, caso contrário ele o odiará; repreenda o sábio, e ele o amará. Instrua o homem sábio, e ele será ainda mais sábio; ensine o homem justo, e ele aumentará o seu saber. ‘O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é entendimento. Pois por meu intermédio os seus dias serão multiplicados, e o tempo da sua vida se prolongará. Se você for sábio, o benefício será seu; se for zombador, sofrerá as consequências’.” (Provérbios 9.1-12)
“Todo mundo que é esperto demais se enrola sozinho”. Repeti essa frase à exaustão aos meus filhos desde que nasceram até ficarem mais velhos. Quase fiz lavagem cerebral neles... Hoje, ambos já adultos, quando começo a frase, eles a completam.
Se olharmos para o texto do sábio transcrito acima, veremos que nos traz dicas muito diretas sobre a sabedoria:
a sabedoria constrói e traz vida
aceita a repreensão – e aumenta a sabedoria
aproxima de Deus
traz longevidade e outros benefícios
Algumas ponderações. O pensamento humano nos traz advertências quanto ao dilema da sabedoria e da tolice. O ser humano é leniente e torpe em muitos aspectos e, por misericórdia, é ágil e sábio em alguns outros. Vejamos que o mesmo livro de Provérbios diz que o que salva uma nação “é ter muitos conselheiros” (11.14) e também diz que quem guerreia precisa de orientação, o que se alcança com “muitos conselheiros” (24.6). Mas algo está entranhado em nós: a ideia nefasta de que somos melhores do que os outros e que os conselhos são descartáveis, típica atitude de quem não é sábio. Isso parte de algumas questões que cegam a sabedoria e a tornam desconectada da realidade ao nosso redor. Um editorial da Gazeta do Povo de 2014 com o título “A sabedoria que nos falta” traz o seguinte: “Nas sociedades tradicionais, a sabedoria era identificada com a mentalidade hegemônica. No dualismo do mundo moderno, sábios somos nós e tolos os que pensam diversamente de nós. No pluralismo pós-moderno, parece quase impossível identificar a sabedoria. Mas ela continua necessária e atraente.” (veja aqui).
Quando olhamos os parâmetros apontados anteriormente em contraste com essa afirmação de Ribeiro Neto, percebemos que algo mudou drasticamente, e ainda está mudando – ao passo que jamais mudou. Tento explicar: quando sistematizamos as eras e épocas de nosso avanço cronológico e histórico, as mudanças aparecem gradativamente de forma didática para nossa percepção, numa exposição quase plástica. Não sem razão, Francis Bacon disse que “em geral, na natureza humana existe mais tolice que sabedoria.” Se percebermos bem o que somos enquanto raça, veremos que sempre fomos assim. A diferença, talvez, resida no fato de antes não aceitarmos bem nossos defeitos crônicos, enquanto hoje os mesmos são não apenas aceitos, mas elogiados e bem-quistos.
O controverso autor norte-americano Jack London disse que “Não teria nada a objetar contra o crescente saber da humanidade, se as pessoas com isso se tornassem mais sensatas.” Em outras palavras, o saber não parece estar sempre relacionado com a sabedoria, o que nem sempre é percebido. Nossos dias são de intensa troca de conhecimento, o qual está ao dispor de nossos dedos enquanto teclam para que nossos olhos leiam nas telas o saber acumulado por gerações e gerações que se debruçaram em busca de descobertas. Mas a sabedoria, a razão e qualidade de utilizar bem o saber ou conhecimento, essa nem sempre se percebe ou, melhor, quase nunca se nota. As massas saltitam encantadas atrás das notas da tolice como os ratos seguiram atrás das notas em Hamelin. Não devemos nos esquecer que, depois dos ratos, foi a vez das crianças...
Uma das questões mais tristes da tolice humana aparece dividida nas duas hastes do mesmo “Y”: 1) não aceitar o conselho do sábio e 2) aceitar o conselho do tolo. Há algo de muito nefasto em se crer tão especial e iluminado que não prescinda do conselho do outro. Isso se torna mais impactante quando o outro é um sábio que tem boas ponderações a dar. Não sei se pior, mas pelo menos tão destruidor quanto isso é o aceitar o conselho do tolo como se fosse um sábio. Geralmente esse tolo vem travestido de inteligência e argúcia, mas não traz sabedoria. O resultado de ambas as coisas é o contrário do que vimos no texto inicial:
destruição e morte
não aceita a repreensão – e diminui a sabedoria
distancia de Deus
abrevia o tempo e afasta benefícios
O homem pode ser tolo em quase tudo que faz. Mas em Deus alcança sabedoria para a vida. Tolice pode ser encontrada em toda parte, mas na igreja será devastadora, particularmente na liderança. Na família, a tolice traz destruição iminente. Na sociedade, miséria e corrupção. O antídoto para a tolice humana também está na Escritura, em Tiago 1.5: “Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida.”

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