A RUGA DO TEMPO
- 9 de dez. de 2016
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Interessante como o tempo deixa marcas. Menos nele próprio, parece. Interessante também como as marcas do tempo começam dentro de cada um e, quando menos se percebe, estão do lado de fora, estampadas nos rostos, nos sorrisos, naqueles sulcos profundos que as mulheres, ainda mais que os homens, tentam disfarçar com recursos da cosmética e das cirurgias, muitas vezes. O tempo deixa marcas nas almas que se cansam com o passar das fases e das eras da própria vida, sem que para isso haja a percepção do próprio tempo, sorrateiro, que aparece e desaparece das mentes como se não estivesse ali.
Em 1984 terminam as publicações em segmento de um longo ensaio sobre o tempo de Norbert Elias, talvez um dos mais importantes de tempos mais recentes. A pergunta central é “o que medem os relógios?”. Elias levou cerca de dez anos desenvolvendo suas possíveis respostas. Ou seja, nem quem se dedicou de forma tão intensa parece ter encontrado facilidade em obter respostas. Casualmente é o ano que deu origem ao nome do romance de George Orwell, cuja primeira frase faz alusão direta ao tempo marcado: “Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas.” Só por curiosidade, é dessa obra que temos a ideia de um “Grande Irmão”, ou “Big Brother”. O livro 1984 foi escrito em 1949 e antevia um futuro estranho, bem mais do que se viu naquele ano. Mas não errou de todo, infelizmente. Voltando a Norbert Elias, ele tende a defender a ideia de que se deu conosco uma espécie de evolução pela qual os mecanismos de controle e autocontrole se modificaram com o crescente desenvolvimento de nossa raça, a tal ponto que o tempo é assimilado como elemento de controle e autocontrole pelo qual nossas expressões poderiam ser estabelecidas e manipuladas em certo grau. Para ele, isso tem tanta importância que as conceituações de indivíduo, coletivo, nação e Estado, por exemplo, sofrem alteração a partir dessa reconfiguração.
Quando surgem os meios mais modernos de aferição e controle de tempo, a humanidade é finalmente subjugada a essa ferramenta de verificação que, além do horizonte, torna-se o algoz de seu próprio idealizador. Não mais para nos permitir saber a que altura do dia ou noite estamos, mas para nos dizer o que fazer naquele exato momento, o tempo marcado desenvolve um novo modelo de opressão sobre a humanidade. Nos dias atuais, início do século XXI, a contagem e amostragem do tempo são imediatos. Não olhamos mais para hastes ao sol, ampulhetas viradas, e coisas do tipo. Olhamos em qualquer direção, parede, pulso, bolso, mural, e lá está um marcador de tempo para nos relatar a obrigação de fazer algo, de acelerar o passo, de mudar as coisas. Ao final de tudo, o resumo da ópera é que nos tornamos escravos do tempo que deveria apenas nos guiar pelos anos na regressiva contagem até o suspiro final.
Algum tempo atrás, em 2011, a indústria cinematográfica lança o filme que no Brasil se chamou “O preço do amanhã”. A ideia é que num futuro não tão distante, o controle populacional faria com que as pessoas tivessem a sua existência controlada por uma espécie de “relógio de vida” luminoso visível em seu antebraço. Créditos poderiam ser inseridos ou subtraídos, o que gera toda a trama do filme. Embora alguns temas paralelos sejam tratados, o filme nos mostra de modo intenso a relação entre vida, morte e tempo. Com isso, chama a minha atenção o fato de que tempo é vivido por nós num constante presente, que, em verdade não o é, porque o presente ao qual sempre nos referimos já é passado quando dele falamos. Por outro lado, o tempo que ainda virá é sempre distante de nossa percepção pelo simples distanciamento de um presente ainda não vivido. Num eterno paradoxo, quando ele chega, torna-se presente e, por isso mesmo, desaparece tornando-se passado.
A Escritura nos fala bastante de tempo, desde a criação, quando lemos em Gênesis 1.14 que “Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos.” Por sinais, estações, dias e anos entendemos claramente a demarcação e delimitação do tempo criado. O sábio relata em Eclesiastes 3 que há tempo para todas as coisas, boas ou más, agradáveis ou não, sendo que delas não escaparemos. Chegamos ao último livro da Bíblia, o Apocalipse, em que muitas vezes o tempo é mencionado, sempre com intensa carga de informação e emoção, até que, por uma última vez, o texto nos diz “Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo.” (Apocalipse 22.10). Haverá tempo em que o tempo será redimido definitivamente, pois toda a Criação de Deus o será e, se o tempo é parte da Criação, está definitivamente incluído nesse processo. Sim, o tempo está próximo!
O tempo deixa marcas. Precisamos ver quais as marcas que temos carregado com a intenção de ver se elas realmente devem fazer parte de nossa jornada. Ao final de tudo, as marcas do tempo deverão ser como as medalhas no peito de um veterano de guerra, como as feridas cicatrizadas no corpo de um valente, como o testemunho duradouro de um verdadeiro herói. Ao olharmos nosso rosto no espelho, vamos nos perguntar sempre sobre as marcas do tempo que temos vivido. Nossas rugas são nossas medalhas!

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