QUEIMADO ENTRE IGREJAS E OS FILHOS MAIS VELHO E MAIS NOVO
- 6 de dez. de 2016
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No meu primeiro post aqui, comentei que amo fazer pequenas ligações entre coisas do cotidiano e o evangelho. Aqui, quero apresentar uma forma de entender a parábola do filho pródigo. Quero dizer que esse texto usa fortemente o livro “O Deus Pródigo”, do Pastor Tim Keller. Aqui já peço desculpas por usar esse nome da parábola, que Keller considera impróprio, mas creio que seja a forma mais fácil de sabermos bem qual a história. O assunto será a forma como ele tenta contextualizar a parábola, falando sobre divisões no meio da igreja, e a minha sugestão usando o jogo de queimado para explicá-la. A parábola se encontra em Lucas 15.
Como eu disse antes, vou tentar trazer uma interpretação entre a parábola do Filho Pródigo e o jogo de queimado, muito popular em várias escolas do Brasil. Para quem não conheça o jogo, o necessário, a saber, nessa comparação são as divisões de espaço. Há duas zonas mortas, uma em cada ponta da quadra. Entre elas se encontram as duas zonas vivas, onde os jogadores de cada equipe ficam, eles são separados por uma linha que divide as duas zonas de vivos. O objetivo do jogo é mandar todos os jogadores da outra equipe para a zona morta, no entanto aqueles que estão nessa zona podem ajudar os colegas.
Tim Keller fala no livro sobre uma divisão entre os crentes. Sempre há pontos de litígio entre as igrejas, e aqui não falo de questões doutrinárias que merecem uma análise bem mais particular, mas sobre questões de liturgia, estilo musical, forma de o pastor pregar, entre outras. Nós deliberadamente questionamos essas coisas como se fossem questões doutrinárias. Ora, nós estamos prontos a questionar a igreja alheia, pois a minha tem um louvor tradicional enquanto a outra tem uma música mais contemporânea, ou nos desentendemos, pois julgamos como pecado o ato de determinada congregação, pois o pastor usa algum tipo de indumentária sacerdotal que consideramos ruim por “n” razões. Nós elevamos essas coisas a um nível de importância no qual elas não estão. (O exemplo aqui foi à relação entre igrejas tradicionais e contemporâneas, mas poderia ser qualquer divisão entre igrejas que não tem na doutrina a sua razão, apesar disso, para facilitar manteremos o exemplo até o fim).
O que isso traz? Depende. De certa maneira, isso é bom. Não é mal que haja igrejas contemporâneas e outras tradicionais. Assim como a raiz dessa divisão poderiam ser muitas outras coisas. Contudo toda vez que tomamos dessas coisas para nos atacar mutuamente nós transformamos esse espaço numa quadra de queimado.
De cada lado está um tipo de igreja. E o que nós fazemos? Nós bombardeamos as ovelhas. Arremessamos contra elas de maneira a ferir nossos irmãos. Sendo literal, nós machucamos sentimentalmente irmãos, para defender gostos pessoais. Perceba, há gente viva dos dois lados, há gente remida por Cristo de cada lado, todavia nós queremos que o nosso formato tenha mais valor, e discutiremos por coisas que comparadas com a comissão que recebemos não tem importância.
O problema não é apenas esse. A verdade é que há filhos perdidos também. Tanto o mais velho quanto o jovem estão perdidos na parábola original. Um tenta conquistar o Pai por meio do cumprimento de regras, crendo piamente que não peca e o outro tenta conquistar alegria, pois percebeu que não tem como conquistar o pai. Ambos estão perdidos. De alguma forma, isso fala sobre nossas atitudes em nossas igrejas.
Assim também há pessoas nas duas zonas mortas. Pois para toda coisa pequena pela qual discutimos há demandas enormes que não crentes também podem discutir. O que vemos então? Os irmãos mais tradicionais se unem a verdadeiros fariseus da igreja para criticar e disputar espaço com qualquer pessoa mais contemporânea. Isso é como no jogo quando um lado se une aos seus colegas da zona morta para tentar atacar os vivos do time adversário. Ou seja, nós nos unimos a não crentes para atacar os crentes, quais as chances de isso trazer benefício? Certamente não trará a esses fariseus que mais e mais se fecharão em si mesmos e não conhecerão o amor da cruz.
O mesmo caso se aplica ao contrário. Imagine que você e seu amigo não crente passam em frente a uma igreja tradicional. Lá o pastor está usando uma indumentária característica, e você tem a preocupação de fazer uma crítica a isso junto ao seu amigo não crente, o qual você nunca se deu ao trabalho de evangelizar. Novamente, quais as chances de isso ser uma boa ideia, ou de isso ajudar essa pessoa a conhecer o amor de Deus?
Além disso, a zona morta tem o direito de atacar os da zona viva, muitas vezes podendo voltar a uma condição melhor no jogo se acertar um vivo. O que isso quer dizer? Assim como no queimado, os mortos espiritualmente não precisam de ajuda para atacar a igreja. Eles realmente não precisam que você lhes dê armas, pois a natureza deles já é essa. Então ainda que não ajudemos, os mortos tentarão nos acertar.
E quando tentam acertar, o que fazemos? No jogo ambos os times correm para o centro. É claro que a razão disso tem a ver com a tática do jogo, entretanto e se pensarmos na linha central como a palavra de Deus, ou como o próprio Cristo. Nesse caso aquele será o ponto onde nos refugiamos e onde escapamos dos ataques dos mortos. E se estivermos unidos sobre essa linha não brigaremos, e talvez, quem sabe, o Senhor nos dê alguns a quem quis salvar.
Vale observar que esse texto não tem a intenção de defender que pastores não ataquem doutrinas que contrariam a palavra de Deus, nem que nos calemos diante de heresias. E ainda, vale a pena discutir diferenças entre uma igreja e outra, apenas defendo que não vale a pena brigar e atacar por isso. Por fim a ideia era mostrar essa forma de organizar a parábola de modo que fique fácil de entender sob essa perspectiva que Tim Keller nos dá, espero ter ajudado. Deus o abençoe!

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