A ILUSTRAÇÃO NO ACONSELHAMENTO CRISTÃO
- 24 de nov. de 2016
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Certa vez um tio meu comentava comigo sobre certo líder religioso. O chefe de religião falava bastante sobre o não julgar os demais com base no amor e sobre como era uma obrigação cristã esse amor que ele oferecia de maneira que todos deveriam fazer. Meu tio, então, disse-me “eu sei que nós discordamos dele, mas em alguns aspectos ele diz coisas boas, não é mesmo?” Eu respondi com uma história:
‘’Dois homens eram amigos de infância que se encontraram depois de anos. Eles se alegraram em descobrir que ambos tinham casado com belas moças e constituído famílias. Em dado momento um comentou sobre a felicidade de seu casamento e de como nunca havia traído a esposa. O outro concordou e disse fazer o mesmo, acrescentando: ‘Eu, felizmente sempre fui muito ajuizado. Se nós nos divorciássemos, eu teria muito a perder. Sou o principal provedor, e boa parte do meu salário passaria a ser dela, além disso, gosto de estar com meus filhos e detestaria me afastar deles, só podendo vê-los no fim de semana. Assim eu nunca a traí nem a contrariei, pois eu sabia que isso traria problemas’. O outro disse: “meu casamento funcionou de forma diferente. Discutimos muito, no início mais ainda, parecia que isso daria muitos problemas, pois sempre havia algo nela que podia ser tratado para que ela fosse alguém melhor, mas ela, também, não deixava passar nada em mim, então brigamos muito, mas o impressionante é que acho que com o tempo eu me tornei uma pessoa melhor por causa dela’. O outro homem sentiu, naturalmente, que havia sido deixado para baixo com tudo isso, então decidiu fazer uma pergunta para provar a hipocrisia do colega: ‘Mas pelo menos eu imagino que você também tenha razões para nunca ter traído, não é’? Com simplicidade, o primeiro respondeu: ‘Eu a amo’”.
Não era a toa que o Senhor contava parábolas. Meu tio e eu discutimos muito a questão antes de chegar a esse conto. De início houve discórdia e a conversa caminhava para uma daquelas situações em que para não ficar mal, dois parentes desistem de um confronto dizendo algo como: bom, esse é o seu pensamento. Mas foi quando contar isso pareceu uma boa ideia que os rumos mudaram, e eu posso dizer que “ganhei meu irmão”, pois ele finalmente entendeu o problema que poderia existir dentro de um pensamento como o daquela liderança.
Minha proposta é que muitas vezes, uma ilustração ajuda uma pessoa a entender um ponto melhor do que uma explicação elaborada e bem construída. Em outros casos não. Há mais de um tipo de pessoa. Mas é bom perceber que se quisermos aconselhar bem, vale a pena saber ilustrar. Algumas pessoas são “ganhas” por uma boa ilustração, por um jeito diferente de fazê-la visualizar o que ela deixa de lado num questionamento.
A ilustração é uma obra de Deus. Não foi a Páscoa no Egito, uma ilustração da Páscoa suprema que Jesus traria? Ou tantos nascimentos improváveis que aconteceram ao longo das histórias bíblicas, uma ilustração do nascimento impossível que se daria na virgem Maria? Essas ilustrações eram demonstrações de Deus do que estava prestes a fazer no mundo, assim como tantas outras que não caberão aqui citar.
A ilustração ajuda o indivíduo a avaliar seus motivos. No exemplo acima, tenho convicção que meu tio analisou seus motivos. Não há como um homem não se colocar no lugar de ambos os maridos na história enquanto a lê. Ele, provavelmente e assim como eu, pensou o porquê de suas ações, será que amava sua mulher ou temia um divórcio? Será que estava disposto a discutir para ajudá-la, ou preferia evitar confrontos para que tudo ficasse bem? Será que ele aplicava essa mesma ideia as demais pessoas que amava, como seus filhos? Vemos isso claramente no exemplo bíblico de Davi que ouve de Natã uma ilustração do que havia feito com Urias e ele excede a própria lei de Deus na punição que daria ao homem da história fictícia, condenando a si mesmo, ainda que não tenha percebido até ser confrontado. A ilustração nos põe no lugar dos seus personagens e nos faz ter perspectivas que não tínhamos, talvez até devêssemos ter, mas por algum tipo de cegueira espiritual não vimos até que foi bem explicado.
Finalmente, a ilustração é bela. Deus não a põe em tudo unicamente para comunicar coisas fantásticas, contudo nossa história é uma ilustração do seu amor. Há ilustrações d’Ele que simplesmente precisam ser “saboreadas”. Quantas ilustrações do amor de Deus você não recebeu ao longo de sua vida? Oro a Deus para que Ele lhe toque o coração enquanto lê isto e você perceba que esse amor foi muito bem ilustrado quando Ele se deu a conhecer a você, ou quando te deu o último fôlego antes dessa leitura, ou mesmo o carinho com o qual tem te tratado que são todos uma ilustração do fato de que Deus ama profundamente os seus.
Encerro esse texto explicando a ilustração acima, pois mesmo quando achamos um significado fácil, é saudável ilustrar, como no exemplo, Davi não percebeu que era o homem da história até ouvir isso. O amor aceita como é, mas o amor não deixa estar. Um dos maiores problemas dos ideais daquele religioso era sua vontade de convencer as pessoas de que o amor envolva não julgar e nunca fazer nada. Ele realmente aceita como é, pois Deus amou quando ainda éramos pecadores (Rm 5.8), mas é impossível dizer que Ele nos deixou como estávamos, assim também, é inaceitável dizer que o amor não diz o que há de errado. O amor transforma, e muitas vezes essa transformação envolve tratar dos defeitos de cada um. Uns têm medo de fazer isso, por achar que serão abandonados, mas se isso acontece, não havia esse amor que aceita tudo, não é mesmo? Também está no exemplo a ideia de que a maior motivação de tudo o que fazemos para alguém que conta com nosso afeto é o amor. Não tem a ver com o medo de perder ou os problemas que uma separação traz. Se a nossa motivação em amar a Deus é o medo do Inferno, ou de não ser abençoado ou tantos outros, já abandonamos há muito o amor. Ame a Deus, e tenha nisso a razão de tudo, e quem sabe esse amor não seja ilustrado por você de alguma forma.

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