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E AGORA?

  • 21 de mai. de 2015
  • 4 min de leitura

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Todos os que andam mais perto de mim sabem que aprecio poesia. Aprecio o jogo das palavras mais que a rima, o subjetivo por detrás do óbvio mais que o que está às claras. A arte da poética é mais parecida com as artes plásticas sem, é claro, deixar por menos as outras expressões escritas, como romance, conto e crônica.

Há alguns excelentes poetas, os quais leio recorrentemente. Como se diz por aí, gosto de voltar à fonte e beber sempre deles. Falam profundamente de si e, sob certa forma paradigmática, da raça como um todo. Nós, os que somos faltos da pena poética, podemos nos deliciar com a arte graciosa dos que são coroados com essa benesse interior.

Dentre os muitos bons poetas, alguns são especialmente apreciados por mim. Falam muito ao coração e à mente; ajudam-nos a pensar e a compreender os tempos e as gentes. Drummond, Quintana, Andrade (o Mário), Pessoa (todos os “Pessoas”), e uma miríade deles. Hoje resolvi compartilhar com vocês a leitura de um dos poemas mais conhecidos do Drummond, o José, que, de tão popular, é apelidado pela primeira linha “E agora, José?” O poema que está transcrito abaixo está disponível em vários meios impressos e eletrônicos.

José E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou,

e agora, José?

E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio – e agora?

Com a chave na mão quer abrir a porta,

não existe porta; quer morrer no mar,

mas o mar secou; quer ir para Minas,

Minas não há mais. José, e agora?

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!

Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar,

sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José!

José, para onde?

Drummond já estava inserido no contexto do que hoje chamamos pós-modernidade. Mesmo assim, os seus anteriores, os da modernidade, já viviam de modo intenso os desafios calamitosos da fragmentação do interior humano. Não que eles nunca antes tenham existido, mas, a partir de certo tempo, eles se tornaram sistematicamente percebidos entre nós.

Como costumeiramente nos propomos, olhando para o poema acima, saltam aos olhos as perguntas mais essenciais da humanidade, aquelas que tocam na origem (de onde vim?), no estado atual (onde estou?) e na eternidade (para onde vou?). Não é de se estranhar que naturalmente não tenhamos respostas para essas perguntas, até porque elas transcendem à parte imaterial e imponderável de nosso ser. Delas, ficarei por enquanto apenas com a última sentença de Drummond no poema, quando ele encerra perguntando, após falar da realidade humana desse ser coletivo cognominado José: “para onde?” Essa pergunta tem sido feita de maneira corrente a todos os seres humanos, mesmo aqueles que tenham se convencido a não mais fazê-la. E não a fazem... em aberto, mas continuam a fazê-la em secreto, apenas a si mesmos. E isso gera angústia, esquizofrenia e tudo mais.

O que temos para nós é uma incerteza absoluta, o que, de per si, seria um enorme contrassenso, não fosse algo natural. Por isso, a fim de responder o que não é mensurável ou constatável, precisamos de respostas à altura. E a fé ganha seu lugar. Fé, aliás, que jamais deixamos de ter, mesmo que depositada em espectros errados. A fé cristã é a única capaz de responder questões de ordem eterna de maneira coerente e lógica, mesmo que tratando o assunto pela ordem da fé e não da lógica empírico-materialista.

A fé que se tem para não ter fé é imensamente mais insana que aquela que temos para ter fé. Explico: não ter fé nas questões da do Deus cristão é muito mais assustadoramente transcendente que tê-la. Eis uma das razões pelas quais José não sabe para onde ir! Ele se esvaziou de Deus e se encheu de si mesmo; só que dentro de si não encontrava as respostas suficientes para satisfazer suas questões mais básicas. E esse José pode ser de qualquer fé que exista, sendo religiosa ou materialista, a não ser a fé cristã.

José pode ser qualquer um de nós, até que seja encontrado por Cristo e tenha em si a inoculação de seus princípios de razão espiritual. Sem eles, José continuará a ser José, sem saber – eternamente – para onde vai.

Cabe a nós, de maneira direta e objetiva, parar e pensar. Sim, pensar. Diferentemente do que se pensa, ser cristão não é ser acéfalo e ignoto. Ser cristão representa alcançar uma nova dimensão da razão, na qual o que antes não se imaginava passa a ser axiomático, por conhecimento e não por teorias e suposições. Lendo Chesterton, se puder fazê-lo, terá uma excelente noção do que digo. E isso ficará para um próximo texto, se Deus quiser.

Em suma: quer ser conhecedor de sua condição futura? Pense. Mas faça-o como cristão. E, diante da pergunta de Drummond “para onde?”, você terá respostas na ponta da língua.

 
 
 

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